terça-feira, 4 de junho de 2019

Cuidado com o que deseja.

Os anos continuaram a se passar. Nesse relato, leitor, já tenho dez anos, já se passaram três anos desde que fui morar com minha avó e meu avô e minha mãe concluiu a faculdade de Direito. Hora de retornar para a casa de minha mãe. Dona Nereide, minha mãe, tinha um pequeno apartamento em um bairro universitário - que por ironia do destino é a Universidade que estudo. - chamado São Manoel. Um lugar simples, dois quartos, banheiro, cozinha, lavanderia. Terceiro andar. Vista para o horizonte. Nessa época, minha mãe estava trabalhando em plantões noturnos em uma unidade básica de saúde daqui da cidade. Mamãe também era funcionária pública. O problema disso é que eu e minha irmã sempre dormíamos sozinhos enquanto nossa progenitora estava no trabalho. Minha rotina era baseada em ir para a escola no período da manhã e na parte da tarde assistir aos espetáculos da televisão que, naquela época, o grande fenômeno era o seriado "Dr. House". Horas e horas acompanhando o famoso médico das telinhas que não tinha medo, não seguia regras e sempre acertava o diagnósticos. Quem não gostaria de ser ele? Entretanto, o lado obscuro de Gregory House era o que me fascinava. Seu sarcasmo, sua ironia, sua inteligência, sua negligência aos protocolos, sua frieza, sua psicopatia. Quem não gostaria de ser como ele? Certa noite, Dona Nereide de plantão, eu fui dormir como era de costume e durante o sono tive um pesadelo. A cena foi aterrorizante! No meu delírio eu estava no próprio apartamento, era noite, e as árvores que haviam em frente ao nosso prédio balançavam por causa de um vento forte. O cenário ilusório era muito próximo ao real, mas, por algum motivo, eu tinha uma fixação muito forte em uma árvore específica que balançava de um lado para o outro fortemente. Lembro-me de estar olhando para o horizonte, aquela escuridão da noite, e subitamente desviei meu olhar para a árvore. Dois pontos vermelhos se projetavam para fora daquela Dicotiledônea, pareciam feixes de laser. Fixei meus olhos para tentar enxergar melhor o que passava e, num piscar de olhos, uma criatura assustadora pulou de dentro da copa da árvore e veio em minha direção. Minhas pupilas dilataram ... Acordei. Qual criatura era? Não faço a menor ideia, pois meu cérebro fez questão de deletar esse pesadelo, porém a sensação de calafrio ainda mora nas profundezas da minha alma. Quando voltei ao controle do meu corpo estava chorando, em prantos, com lágrimas escorrendo pelo rosto, mas não expelia uma sequer palavra. Apenas sentia. Paralisado. Totalmente assustado e sem ninguém para pedir ajuda, visto que minha irmã já dormia e minha mãe estava no trabalho. Foi aqui que desejei ser como ele. Desejei que meu lado mais sombrio aparecesse e tomasse conta e nunca mais me deixasse chorar de novo. Desejei ser como o Dr House. Sem medos, confiante, sarcástico, irônico, manipulador. Nunca chorava. O que eu não esperava é que fosse realmente acontecer.


segunda-feira, 3 de junho de 2019

O abraço sincero da madrugada.

Voltamos ao tempo das minhas primeiras lembranças. Meu avô paterno, Seu José, sempre foi um homem de palavra, digno, rústico quando tinha de ser e também sincero e carinhoso quando devia. Meu avô foi a figura paterna da minha vida, sendo o seu maior conselho para mim o cumprimento das promessas. Falou que ia fazer? Faça! Prometeu? Cumpra! E desde essa época, no começo dos anos dois mil, essa coisa de sempre cumprir o que falo se tornou uma lei para mim, criou raízes no meu cérebro. A esperteza da situação foi desenvolver uma válvula de escape chamada "Minha mãe não deixa" que eu uso sempre quando há algo que não tenho muito interesse. Meu avô sempre foi um homem trabalhador, do campo, sem tempo ruim. Por anos e anos exerceu a função de jardineiro em uma igreja perto da casa em que morávamos. Com poucas regalias em casa, Seu José sempre dava um jeito de driblar a Dona Maria, minha avó, odiadora fanática de qualquer tipo de droga, quando batia aquela vontade de tomar uma, sabe? Sempre no caminho de retorno ao lar parava em um barzinho e comprava uma cerveja. Sempre que meu avô chegava era um sinal de que o dia estava perto de seu fim, a hora do jantar próxima e o até logo aos meus amigos de bairro era inevitável. A tradição na casa do Seu José e da Dona Maria era simplória e consistia em tomar um banho, vestir uma roupa limpa e jantar todos juntos, no mesmo horário. Nada de jantar ou almoçar sem camisa. Até hoje não sei o motivo disso, porém sempre respeitei quando levava uma advertência. Jantar servido e prontamente ingerido. Comida boa e de bom grado, afinal Dona Maria, nessa época, tinha só sessenta anos de cozinha. Só sessenta! Após o jantar, meu avô tinha o costume de sentar na varanda de casa e ouvir o vento, como ele mesmo dizia. Em poucos instantes após sentar na varanda com o Seu José, lembro de ter um cansaço súbito, repentino e incontrolável. Uma criança é mais ou menos desse jeito, não é mesmo? Uma rotina ativa durante o dia e um Shut Down logo que a noite vem. A minha agenda era desse jeito. Sem compromissos e apenas vivendo o dia a dia. No ano de 2002 acontecia a primeira Copa do Mundo que eu me recordo, divida entre Japão e Coreia do Sul, com jogos nos dois países. O fuso horário era uma coisa massacradora para mim naquela época, pois meu corpo estava exausto depois de um dia inteiro e acordar quatro horas da madrugada era muito complicado. Certa noite, enquanto eu dormia, meu avô se aproximou e me deu um leve cutucão. Imaginei estar sonhando e virei de lado na cama. De repente, uma outra pontada mais forte ainda. Abri os olhos não entendendo nada, mas uma simples frase foi balbuciada: "Hora do jogo." O combate era entre Brasil e Inglaterra, um jogo emblemático, quartas de final da competição. Durante meu caminho até o sofá da sala, minha avó estava de joelhos em frente a uma imagem de algum santo cujo nome não me lembro e soltou uma das frases mais marcantes da minha vida: "Que Deus proteja os nossos jogadores." Deitamos eu e meu avô cada um em um sofá, paralelamente um ao outro, e acompanhamos ao jogo de forma ávida, entretanto sem nenhuma palavra, visto que o fuso horário colocou o jogo às 04:00 da madrugada e minha avó, religiosa fervorosa e moradora nativa do sítio, já estava ajoelhada para rezar o seu terço matinal. O embate entre as duas equipes foi feroz. Brasil e Inglaterra tinham ótimos times, o time brasileiro com Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e a equipe inglesa com David Beckham, o mago das faltas e das bolas com efeito. Era um absurdo ver o inglês bater faltas. Uma obra de arte. Michelangelo gostaria de ter pintado o exímio cobrador em um dos seus movimentos plásticos. O jogo estava pegado, um a um no placar, a Inglaterra pressionando o time brasileiro até que sai uma falta na lateral direita para o Brasil. O cobrador? Ronaldinho Gaúcho. Chance de gol? Mínima, falta quase do meio do campo e com pouca angulação para um chute direto. O camisa 11 parte e realiza a cobrança de uma forma tão fantástica que pegou o goleiro da Inglaterra de surpresa, encobrindo-o. Dois a um para o Brasil! Um puta golaço. Meu avô levanta do sofá, eu também e nós dois nos abraçamos e comemoramos aquele gol histórico. Ao fundo, em meio ao som da televisão e a nossa euforia, um "Amém!" vindo do quarto da minha avó. O Brasil foi campeão daquela edição da Copa do Mundo, mas o abraço que eu recebi do meu avô ficou marcado.



Descanse em paz, vô. Sinto sua falta e perdão pela minha preguiça.

domingo, 2 de junho de 2019

A Luz no fim do túnel.



No dia 09/08/1993 nasceu uma pessoa diferente. Uma pessoa pouco parecida com as outras existentes. Em um hospital hoje abandonado nascia a minha pessoa, o escritor desse humilde texto, e minha mãe teria um dos melhores momentos de sua vida. Entretanto, iria começar, naquele instante, uma jornada de muita luta. Meu pai e minha mãe se separaram naquele ano de 93 e a Dona Nereide, como muitas outras matriarcas nesse país de terceiro mundo, se viu sozinha na imensidão do mundo, durante a transição para a nossa atual sociedade. O que eu quero dizer, leitor, é que a Dona Nereide percebeu que estava só, mas NUNCA abaixou a cabeça e desistiu. Naquele momento, nossa família era composta de três pessoas: Dona Nereide, Sarah, minha irmã mais velha, e a minha pessoa, recém nascido. As minhas lembranças dessa época são mínimas, mesmo quando eu tento me recordar dos meus dois, três, quatro anos. Não consigo puxar na memória algo que tenha me marcado, pois é como se tivesse sido um limbo temporal na minha existência nesse plano. Alguns anos se passaram, mas eu existi apenas na memória das pessoas que me viram, visto que não consigo relatar algo que eu realmente me lembre. Já com sete anos de idade, minha mãe pediu a minha avó materna, Dona Maria, que cuidasse de mim e da minha irmã enquanto a Dona Nereide terminava sua graduação em Direito - minha mãe nessa época já batia seus quarenta anos de idade, quarenta. - e minha avó prontamente aceitou o desafio com o maior orgulho e com a maior alegria, segundo relatos. Poucos dias se passaram desde a minha chegada ao novo lar e eu ainda me sentia estranho, pois aquele lugar não era o "meu". Aqui as coisas começam a ficar interessantes ... Mês de Agosto, Dia dos Pais, Meu aniversário. Primeira série do Ensino Fundamental e lá estava eu, um menino comum, alegre, brincalhão e que tentava com todas as forças ser igual aos outros e outras. Lembro-me perfeitamente da Professora nos chamando para a sala de aula devido a uma surpresa que foi preparada para os alunos naquele Dia dos Pais. Ao chegar na sala, cada um foi direto ao seu lugar e eu era o ponta esquerda do time, sentava na primeira cadeira da primeira fileira na parede esquerda da sala. Olhos sempre na lousa ou na janela, observando o movimento, o mundo lá fora ou as escritas que estavam no quadro. Ficamos todos quietos. A tensão no ar. Ninguém estava percebendo o que estava acontecendo com exceção da Professora, é claro. Pisquei os olhos e quando abri, os pais de todos começaram a entrar na sala de aula e ir em direção aos seus entes queridos. Todos os meus colegas de salas estavam com seus pais, todos. Adivinhe você, leitor, quem era o único que não tinha ninguém. Aquela coisa toda de festa, cumprimentos e abraços e eu lembro de desviar o olhar para a janela evitando não chorar. Pisquei de novo. Acredite em mim, vários minutos já se passaram e eu só lembro dos pais entrando pela porta e, de repente, a Professora aparece ao meu lado dizendo que havia uma carta para mim. Uma carta do meu pai. Confesso que não lembro nada do que estava escrito, mas lembro do papel, da caligrafia, não do conteúdo. Abri a carta e li o que estava escrito e logo em seguida desabei no choro. Um criança de sete anos, sozinha no dia dos pais em uma escola pública no interior de São Paulo, recebendo a carta de uma pessoa que até hoje, nos meus vinte e cinco anos, não tem definição para mim. Abaixei a cabeça entre os braços, pois não queria que meus colegas de classe percebessem o meu desespero naquele momento. A memória mais perfeita que eu tenho desse momento é da última linha da carta e essa sentença dizia "No fim do túnel há uma luz!".

É aqui que as minhas alegrias foram levadas de mim da mesma forma que o vento leva uma folha caída no chão ...