segunda-feira, 3 de junho de 2019

O abraço sincero da madrugada.

Voltamos ao tempo das minhas primeiras lembranças. Meu avô paterno, Seu José, sempre foi um homem de palavra, digno, rústico quando tinha de ser e também sincero e carinhoso quando devia. Meu avô foi a figura paterna da minha vida, sendo o seu maior conselho para mim o cumprimento das promessas. Falou que ia fazer? Faça! Prometeu? Cumpra! E desde essa época, no começo dos anos dois mil, essa coisa de sempre cumprir o que falo se tornou uma lei para mim, criou raízes no meu cérebro. A esperteza da situação foi desenvolver uma válvula de escape chamada "Minha mãe não deixa" que eu uso sempre quando há algo que não tenho muito interesse. Meu avô sempre foi um homem trabalhador, do campo, sem tempo ruim. Por anos e anos exerceu a função de jardineiro em uma igreja perto da casa em que morávamos. Com poucas regalias em casa, Seu José sempre dava um jeito de driblar a Dona Maria, minha avó, odiadora fanática de qualquer tipo de droga, quando batia aquela vontade de tomar uma, sabe? Sempre no caminho de retorno ao lar parava em um barzinho e comprava uma cerveja. Sempre que meu avô chegava era um sinal de que o dia estava perto de seu fim, a hora do jantar próxima e o até logo aos meus amigos de bairro era inevitável. A tradição na casa do Seu José e da Dona Maria era simplória e consistia em tomar um banho, vestir uma roupa limpa e jantar todos juntos, no mesmo horário. Nada de jantar ou almoçar sem camisa. Até hoje não sei o motivo disso, porém sempre respeitei quando levava uma advertência. Jantar servido e prontamente ingerido. Comida boa e de bom grado, afinal Dona Maria, nessa época, tinha só sessenta anos de cozinha. Só sessenta! Após o jantar, meu avô tinha o costume de sentar na varanda de casa e ouvir o vento, como ele mesmo dizia. Em poucos instantes após sentar na varanda com o Seu José, lembro de ter um cansaço súbito, repentino e incontrolável. Uma criança é mais ou menos desse jeito, não é mesmo? Uma rotina ativa durante o dia e um Shut Down logo que a noite vem. A minha agenda era desse jeito. Sem compromissos e apenas vivendo o dia a dia. No ano de 2002 acontecia a primeira Copa do Mundo que eu me recordo, divida entre Japão e Coreia do Sul, com jogos nos dois países. O fuso horário era uma coisa massacradora para mim naquela época, pois meu corpo estava exausto depois de um dia inteiro e acordar quatro horas da madrugada era muito complicado. Certa noite, enquanto eu dormia, meu avô se aproximou e me deu um leve cutucão. Imaginei estar sonhando e virei de lado na cama. De repente, uma outra pontada mais forte ainda. Abri os olhos não entendendo nada, mas uma simples frase foi balbuciada: "Hora do jogo." O combate era entre Brasil e Inglaterra, um jogo emblemático, quartas de final da competição. Durante meu caminho até o sofá da sala, minha avó estava de joelhos em frente a uma imagem de algum santo cujo nome não me lembro e soltou uma das frases mais marcantes da minha vida: "Que Deus proteja os nossos jogadores." Deitamos eu e meu avô cada um em um sofá, paralelamente um ao outro, e acompanhamos ao jogo de forma ávida, entretanto sem nenhuma palavra, visto que o fuso horário colocou o jogo às 04:00 da madrugada e minha avó, religiosa fervorosa e moradora nativa do sítio, já estava ajoelhada para rezar o seu terço matinal. O embate entre as duas equipes foi feroz. Brasil e Inglaterra tinham ótimos times, o time brasileiro com Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e a equipe inglesa com David Beckham, o mago das faltas e das bolas com efeito. Era um absurdo ver o inglês bater faltas. Uma obra de arte. Michelangelo gostaria de ter pintado o exímio cobrador em um dos seus movimentos plásticos. O jogo estava pegado, um a um no placar, a Inglaterra pressionando o time brasileiro até que sai uma falta na lateral direita para o Brasil. O cobrador? Ronaldinho Gaúcho. Chance de gol? Mínima, falta quase do meio do campo e com pouca angulação para um chute direto. O camisa 11 parte e realiza a cobrança de uma forma tão fantástica que pegou o goleiro da Inglaterra de surpresa, encobrindo-o. Dois a um para o Brasil! Um puta golaço. Meu avô levanta do sofá, eu também e nós dois nos abraçamos e comemoramos aquele gol histórico. Ao fundo, em meio ao som da televisão e a nossa euforia, um "Amém!" vindo do quarto da minha avó. O Brasil foi campeão daquela edição da Copa do Mundo, mas o abraço que eu recebi do meu avô ficou marcado.



Descanse em paz, vô. Sinto sua falta e perdão pela minha preguiça.

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